Dia 23 de Outubro de 2013 a leiloeira Palácio do Correio Velho leva à praça um notável conjunto de jóias, muito pouco habitual em Portugal. Estamos a falar em
diamantes com pesos superiores a 9 quilates, ou em cores de fantasia como o castanho rosado. E foram precisamente os diamantes de cor, os designados por
"fancy", a grande paixão deste português que muito novo rumou ao Brasil, onde fez grande fortuna e se tornou célebre no estrito mundo do negócio das pedras
preciosas. Foi ele quem enviou para Portugal o diamante de 70 quilates que seria vendido a Ricardo Espírito Santo, por um outro grande conhecedor de joalharia e
um dos mais importantes negociantes de jóias do século XX, o "velho Britinho", nada menos que o Pai desse grande colecionador de Arte que foi Jorge de Brito.

      Manuel Ferraz de Sousa foi, sem dúvida, o português que possuiu os melhores diamantes, fora a Casa Real num passado longínquo. Faz agora precisamente
26 anos, neste mês de Outubro, que a Sothebys levou à praça, em Nova Iorque, o diamante azul em talhe esmeralda, com o peso de 10,07 ct, que seria arrematado
por dois milhões e duzentos mil dólares! Essa era a estrela da coleção de Manuel de Sousa, mas só pelas minhas mãos passaram, para além desse, diamantes
encarnados, laranja, verdes, rosa, etc, etc. Para ilustrar o gosto que este Homem teve pelos diamantes de cor, abaixo publico várias fotos do anel que até à morte
levava no dedo, com diamantes de várias cores e que no interior do aro tinha gravado os seus pesos.

      Ironicamente a História da Joalharia é feita por académicos ou diletantes que nada sabem sobre estes homens que, numa só transação, movimentavam
quantias que as grandes joalharias demoravam anos a realizar, mas só destas últimas se fala e escreve, sendo que as mais importantes jóias que existiram em
Portugal ficam no total esquecimento. Basta recordar que Artur de Brito foi um dos fundadores da joalharia Barreto e Gonçalves, sendo ele Avaliador Oficial e o perito
em pedras. Mas como gostava de ficar na sombra, quem dava a cara era o seu sócio Alberto Barreto, já que o Américo Gonçalves era um notário que não interferia
no negócio. Artur de Brito era quem tinha acesso aos grandes capitalistas, e depressa compreendeu que não precisava da loja para fazer os seus grandes negócios.
Assim a fama de que na Barreto e Gonçalves havia um grande especialista em pedras, jóias e pratas antigas viria a recair sobre o filho de Alberto, o Américo
Barreto, que viria a tornar-se Comendador e "o grande perito" aos olhos dos que lá iam, acabando por ficar com a fama. Veja-se só a excitação provocada pela
compra, por parte do Estado, do Alfinete "a camponesa" por € 800. Como não conseguem chegar, nem de perto nem de longe, às do Artur de Brito, fartam-se de
lançar foguetes com a bijuteria do Américo Barreto... Mas essa estória irei desmistificar qualquer dia, revelando algumas das jóias que outrora foram de Artur de
Brito, anonimamente vendidas na Christies, sem representantes do Ministério da Cultura a optarem por aquilo que ninguém licitou!!!

      Manuel de Sousa, o "Sousa dos Diamantes", deixou, a par de um magnífico conjunto de jóias e pedras soltas, um importante conjunto de imóveis, pois sempre
que vinha a Portugal comprava mais um prédio... Este, onde estou precisamente neste momento a escrever, é um deles, talvez por isso encare o que estou a fazer
como um dever e uma homenagem a esses grandes conhecedores e negociantes que urge tirar do anonimato, principalmente agora que todos os dias surgem novos
rostos a reivindicarem um pioneirismo na joalharia em Portugal, como se outros muitíssimo mais importantes não tivessem existido.
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O anel "talismã" que sempre
acompanhou Manuel Ferraz de
Sousa.

Só ele já revela bem a paixão
que o seu proprietário tinha pelos
diamantes.
       As peças que a seguir mostramos são algumas das que agora vão a leilão. De notar que todos os diamantes de maiores dimensões foram pesados
descravados, pelo que o seu peso é exacto, bem como as cores descritas foram as dadas no colorimetro Sarin 3000, tendo tido recentemente oportunidade de
comparar a sua exatidão face aos rigorosos critérios do Gemological Institute of America - GIA. A classificação de pureza também saiu reforçada com o facto de as
pedras terem sido analisadas fora das jóias, não havendo nenhum defeito "escondido" por alguma "garra" da cravação.
82
81
77
80
76_79
10.07 ct
O Diamante azul com 10,07 ct vendido na
Sotheby's, em 1987,
por US $2.200.000
9,05 ct
9,87 ct
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