Dia 17 de Setembro a Christie's leva a leilão, em Londres SOUTH KENSINGTON, uma cafeteira de finais do século XVIII, com marca de ensaiador
do Funchal
José Francisco de Freitas Ferraz e marca do ourives JOÃO JACINTO TEIXEIRA, celebrizado pela criação da três sacras em prata da Sé
do Funchal, do qual se conheciam outras obras, principalmente de cariz religioso, bem como talheres. Sendo raras as peças de ourivesaria com
marcas do Funchal, ainda mais raras são as de uso civil, sendo a primeira vez, pelo que temos conhecimento, que surge uma cafeteira, com a
particularidade de ainda ser do séc. XVIII e de grande qualidade de execução.
KEN9387_SaleCat 61
9387 lt 249
O nosso agradecimento a Rui
Carvalho da Silva
e  Michael
Prevezer
pela nota de catálogo,
onde expressam a gratidão pela
ajuda na catalogação desta
cafeteira.
Ainda está muito atrasado o nosso
trabalho de investigação sobre as
marcas do Funchal, felizmente na
nossa coleção temos 3 peças com
marcas deste ourives e do
ensaiador, são simples colheres de
sopa mas revelaram-se muito úteis
neste caso.
Esperemos que os nossos
colecionadores e instituições
culturais estejam atentas a esta
cafeteira, verdadeiramente única!
A raridade da ourivesaria civil da Madeira pode ser atestada pela quantidade de peças levadas a leilão - conhecemos 2 e mais 4 colheres que comprámos...! Na Cabral
Moncada tivemos uma salva, no leilão 129 de Julho de 2011, lote 869, com uma base de licitação de €700 e que fez €1.500, e a São Domingos, do Porto, teve no seu leilão de
Março de 2013 uma palmatória com marca do ensaiador do Funchal  
José Francisco de Freitas Ferraz, tendo a marca de ourives sido atribuída ao prateiro do Porto Serafim
Teixeira e Melo
e datada de 1703 a 1721, algo que não tem a mínima consistência - é evidente que a marca era a do ourives do Funchal Tomé da Silva, datável de 1775 a
1810. E de mais não temos conhecimento. Enganos como o da São Domingos infelizmente são frequentes, mas mais estranho é o Museu de Arte Sacra do Funchal, ao
classificar uma Caldeirinha e respectiva Hissope,  escrever que a mesma possui marcas do ourives do Funchal
João Jacinto Teixeira, conjuntamente com marca do ourives
de Lisboa I.T...!!! Sabemos que a marca de
João Jacinto Teixeira está formada pelas letras I.T, porque carga de água foram os "peritos" desse Museu buscar o ourives de
Lisboa I.T de que se desconhece o nome e que exerceu mister entre 1720 e 1750, sendo portanto impossível que tivesse executado uma caldeirinha neoclássica!
CM 129 869
180
s17-caldeirinhahissope_gr
Madeira X-17 3,5x
_DSC6015a
X-28
Sacras Sť Funchal
As duas primeiras imagens mostram a marca do ensaiador José Francisco de Freitas Ferraz, sendo a única marca de
ensaiador português onde está representada a inicial do seu nome, aqui ao lado dos "pães de açucar" que simbolizam a
Madeira. Mencionamos as marcas como sendo do Funchal pela simples razão de que, como acontece no restante território
nacional, todas as marcas estarem relacionadas com uma cidade. Para os Açores será diferente, mas esse caso particular
ainda está menos estudado que a Madeira e há a forte possibilidade de terem existido ensaiadores noutras ilhas que não
São Miguel.
As outras duas marcas são do ourives
João Jacinto Teixeira, o autor da cafeiteira que motivou a feitura desta página. A foto
com a sua marca é a que está presente nas três Sacras existentes na Sé do Funchal, que abaixo publicamos foto. Por
último está a marca de ourives de Lisboa I.T que o Museu de Arte Sacra do Funchal confundiu com a de J
oão Jacinto
Teixeira
. O contorno irregular da primeira, nem como a datação bem mais recuada, torna-as inconfundíveis. Mais estranho
foi o Museu de Arte Sacra avançar 30 anos na datação da marca de Lisboa...
L-337 B
Sacras
211
       Ao lado esquerdo temos o conjunto de três Sacras
executadas por
João Jacinto Teixeira, bem ao gosto
rococó, em si suficientes para demonstrar as capacidades
estéticas e técnicas deste ourives. Quanto à Cafeteira,
basta ver a da fota à direita para se constatar a influência
da prataria inglesa, algo que foi generalizado a todo o
Portugal, com especial incidência nas cidades do Porto e
do Funchal. Enquanto a cafeteira inglesa foi executada
pelo ourives londrino
William Grundy em 1762, a feita no
Funchal terá sempre mais uns 30 anos. Em comum têm a
forma, a decoração, a particularidade da grande
semelhança das pegas em madeira, bem como as
grandes dimensões e peso de ambos os exemplares.
Ainda não a tivemos em mão, pelo que a pouco sabemos
quanto às técnicas de fabrico, algo que dentro de poucos
dias vamos tirar a limpo. Pelo valor alcançado pela
palmatória de Tomé da Silva - €2.500 - esta cafeteira
certamente não ficará sem comprador, só esperamos que
venha para Portugal, pois é exemplar digno de figurar em
qualquer museu!
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João Jacinto Teixeira, ourives da prata do Funchal

1775 - 1815
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