The Exceptional Sale Julho 2012 199
PF1302-f 301
    Há um ano a Christie's levou a leilão o "Caquesseitão" dos Marqueses do
Alegrete, pela disparatada quantia de €450.000. Claro que não houve
comprador, o que fez com que dito voasse até à Sotheby's, que agora o levou a
leilão com uma estimativa mínima de €200.000, foi arrematado ao 2º lance por
€150.000. A nossa avaliação em Lisboa, em duas leiloeiras distintas, tinha
sido de €80.000 a €120.000, coincidente com a estimativa do Dr. Luís Castelo
Lopes. Pensamos que foi a avaliação da Christie's que "ajudou" agora a
venda na Sotheby's, ao fim e ao cabo foi arrematado por uma terça parte...! Por
conseguinte, se o Estado português tivesse, o ano passado, optado por o
adquirir, estava a perder €300.000 !
   A polémica que se levantou sobre o Estado não ter optado pela sua compra
ainda é mais ridícula tendo em conta os outros três que estiveram à venda em
Portugal, todos abaixo dos €100.000, e nessa altura nenhum jornalista se
lembrou de falar neles, eram números muito baixos para ajudar a vender
papel...!
   Claro que também concordamos que um Museu nacional deva adquirir um
destes exemplares, mas a preços realistas e já agora um que não esteja
alterado, ter pertencido à fidalguia não é argumento para coisíssima nenhuma!
   Quanto ao facto de estas peças estarem a sair de Portugal, é lamentável
essencialmente pela situação económica em que todos estamos, e quem
ainda tem bens com cotação internacional tem todo o direito em os vender.
Mas para a história é bom que se vá dando notícia de tudo o resto que está a
sair, e que por vezes nem se sabe que cá alguma vez existiu.
        Como quase não existe jornalismo de investigação, existindo sim um "pudor" em falar com quem sabe, por vezes
coleções inteiras são postas à venda em leiloeiras internacionais sem que ninguém dê notícia, simplesmente porque a
origem das mesmas é omitida. Ainda há dois anos a família de José Maria Borges Coutinho do Espirito Santo Silva decidiu
colocar a sua coleção na Christie's, tendo esta designado a venda, em dois catálogos e em dois dias consecutivos, como
"Iberian Private Collection". E muita coisa havia com interesse para os nossos museus, o problema é que estes estão -
sempre estiveram - sem dinheiro. Claro que quanto a nós a solução passava por dar autonomia aos mesmos para estes
terem uma política de aquisição em paralelo com uma de alienação, há bens repetidos ou que não se enquadram no
modelo de Museu a que foram oferecidos, jazendo nas reservas a que ninguém tem acesso, e que com uma política
transparente poderiam e deveriam ser vendidos e esse dinheiro reverter para um fundo de aquisições. Nada mais simples,
mas ainda vamos ter que esperar uns séculos para que se faça luz na cabeça de quem comanda os destinos do nosso
património.
   Vem isto a propósito de uma série de peças excecionais que a Sotheby's leva a leilão, em dois leilões a decorrer nas
próximas duas semanas, com a designação de "IBERIAN PRIVATE FAMILY COLLECTION". Uma designação que é, mais
uma vez, uma forma de fazer "curto-circuito" para que a cabecinha dos nossos jornalistas não junte um mais um e chegue à
conclusão que faz dois!
   Para quem não nasceu ontem e ande nisto das antiguidades já há uns bons anos, ao ver as peças que vão a leilão
imediatamente se faz um "click", vindo à memória que em qualquer lado já tinham sido vistas. Lá fui em busca do catálogo da
Feira de Antiguidades realizado na FIL no ano de 1974, a tal que foi suspensa a meio por entretanto se ter dado o 25 de Abril,
precisamente 5 dias após a sua inauguração. A única coisa que me tinha ficado em memória desse certame tinham sido
precisamente os magníficos objectos em cristal de rocha e, julgava eu, ouro com esmaltes. Agora sei que só parte era ouro,
o resto é prata dourada, o que não tira mérito ás mesmas, só desvanece um pouco o meu imaginário...  
    
Hortega 1
Hortega
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        Como se pode ver pela página do catálogo, tratavam-se de várias peças em cristal de rocha, ouro, prata e esmaltes, apresentadas pela célebre antiquária Elena Adorno
Sarto de Hortega, uma espanhola que veio para Portugal aquando da guerra civil em Espanha, e que ascenderia ao top dos antiquários portugueses. Já em Bilbao, o seu
leque de relações era vastíssimos, indo de bispos à célebre Pasionaria, mesmo antes de esta se ter tornado comunista. Mas isso são estórias que davam um livro bem
volumoso...  Como antiquária em Lisboa, pelas suas mãos passariam peças que a maioria dos "peritos" negaria veementemente que algumas vez tivessem passado por
Portugal, mas pensamos que só esta coleção será suficiente para imaginarem tudo o resto.       
     A primeira peça a ir à praça, dia 3 de Julho, é a que se pode ver na foto do lado direito, um jarro e bacia em cristal de rocha, com montagens em ouro, prata e esmaltes,
conjunto desenhado por Henri Cameré e fabricado por Froment-Meurice. Quanto à proveniência é dito o seguinte:
    
 "Said to have been in the possession in 1867 of Antoine d'Orléans, duc de Montpensier (1824-1890), youngest child of Louis-Philippe, King of the French, and Marie-
Amélie de Bourbon-Siciles. In 1846, the Duke, who had previously pursued a military career, married the 14 year old Louise-Ferdinande, daughter of Ferdinand VII of Spain,
and heiress presumptive of her elder sister Isabella II of Spain. Two years later following the revolution in France, the couple decided to make their home in Spain where the
Duke was first promoted by Queen Isabella to the rank of infante of Spain in 1858 but shortly after accused of plotting against the throne and banished. The next 20 years were
tempestuous both for Spain and for the Duke’s family but both were finally reconciled in 1878 with the marriage of Alfonso XII with Mercedes d’Orléans, the Duke’s daughter.
The Duke was a long-term patron of both François-Désiré and his son, Emile Froment-Meurice, premier Parisian jewellers and goldsmiths, this ewer being apparently one of his
earlier purchases from Emile, who with his mother took over the firm following his father's untimely death in 1855. In fact, according to the biographer Philippe Burty, it was
the Duke’s fabulous wedding presents for his bride and her sister which were the first Froment-Meurice pieces to be seen and much admired in Spain, leading to the firm being
patronised by many aristocratic Spanish families. For a detailed description of the Duke’s patronage, see Fernando A. Martin’s article, ‘La presence de Froment-Meurice en
Espagne’, in the exhibition catalogue, Trésors d'Argent, Les Froment-Meurice, orfèvres romantiques parisiens, Musée de la Vie Romantique, Paris, 2003, pp. 67-93. A coloured
drawing for the ewer (p. 76) comes from an album of designs, now belonging to the Patrimonio nacional, Madrid, prepared by Emile Froment-Meurice for the betrothed
Mercedes and Alfonso in 1877".
   Acontece que a Rainha D. Amélia era neta, pelo lado materno, de Antoine d´Orléans, Duque de Montpensier, o que sugere que este conjunto provenha das coleções reais
da Casa de Bragança, uma pista que valerá a pena aprofundar, até porque entre as prendas oferecidas aquando do casamento de D. Amélia com D. Carlos, várias tinham a
assinatura de Froment-Meurice. O facto de a Sotheby's omitir, quanto a nós deliberadamente, a ligação directa de Montpensier à Casa Real Portuguesa, a par da genérica
designação de "coleção ibérica", revela o cuidado em não levantar polémicas sobre o que está a acontecer com o nosso património, o que sobreviveu ao Gonçalvismo está a
ser dizimado pelo Gasparismo..., que isso fique registado para a História!
 
Caravela D
O brinde oferecido pelas damas de Paris tem a forma
do navio que serve de emblema à cidade de Paris: uma
nau de prata vogando, sustentada por duas sereias,
que parecem emergir duma grande bacia de prata, com
bordos de jaspe sanguíneo, desenho de Henrique
Cameré, sendo o modelo das sereias feito por M.
Chapu, membro do Instituto, e o trabalho de ourivesaria
de Froment Meurice e de Ancoc; as armas de Paris,
com brilhantes, estão dispostas no costado da nau;
nas auriflamas lêem-se os nomes de D. Amélia e D.
Carlos; os cestos das gáveas têm a forma de coroas
murais; no soco tem uma inscrição com a data do
casamento: 22 de Maio de 1886.
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      Finalmente dia 10 de Julho vão as restantes peças a leilão, igualmente em Londres. Desta vez são as de proveniência austríaca, assinadas pelos expoentes máximos do
historicismo vienense, como KARL RÖSSLER e HERMANN BÖHM, sendo outras anónimas, como é frequente neste tipo de peças, sendo a atribuição das mesmas feitas
pelas características técnicas e decorativas das mesmas, algo que desta vez não foi feito, mas a excelente fotografia realizada pela Sotheby's dá-nos elementos para um
trabalho futuro. A última vez que uma coleção de peças vienenses apareceu em leilão, foi em novembro de 2008, na Christie's de Londres, onde tivemos a oportunidade de as
desmontar e analisar em pormenor, daí acharmos que pelo menos duas das que vão agora à venda podem ser atribuídas a Hermann Ratzersdorfer. Mas desta vez uma
leiloeira nacional achou que o melhor era serem vendidas lá fora e nem sequer fomos chamados para as ver. Isto apesar de possuirmos uma das bases de dados mais
importantes a nível mundial sobre pratas vienenses. O que nos vai fazer acelerar a sua disponibilização online, pois são estas desfeitas que nos fazem mover...!
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AN ENGRAVED ROCK CRYSTAL HUNTING HORN WITH JEWELLED AND
ENAMELLED SILVER-GILT MOUNTS, VIENNA, LATE 19TH CENTURY

the crystal sections finely engraved with trumpet-blowing nymphs inhabiting plumy
scrolls, the wide silver mounts and fluted mouthpiece scrolled in multi-coloured
champlevé enamels and applied with square-cut emeralds terminating in the cast
equestrian figure of St George, on original velvet-covered stand, with original leather
case

length 58cm

ESTIMATE 30,000-50,000 GBP
A LARGE AND DEEP ROCK CRYSTAL DISH WITH JEWELLED AND
ENAMELLED SILVER-GILT MOUNTS, KARL RÖSSLER, VIENNA, CIRCA 1900

each rock crystal panel engraved with an urn of flowers or a mask flanked by
griffins within scrollwork, the gilt mounts applied with pierced, jewelled and
enamelled scrollwork friezes of masks alternating with fruit or griffins above an
inner row of caryatids supportng baskets of fruit, maker's mark, Viennese control
marks.

48 cm

ESTIMATE 40,000-60,000 GBP
Continua...
Elena Hortega
Henrique Correia Braga (crónica no passado)
                                 &
Sofia de Ruival Ferreira (crónica no presente)